BEM-VINDOS

Parece hoje evidente o contributo vital do cidadão e sociedade civil nos sistemas de saúde e na saúde pública. Não obstante, fazer a ligação deste potencial representa um enorme desafio e uma tarefa complexa para os decisores políticos e organizações, sobretudo pela definição do papel que o cidadão poderá assumir no conjunto dos players da saúde.

Adicionalmente, a prestação dos cuidados de saúde dos tempos atuais é complexa, perante um cidadão, hoje mais exigente, que se esforça por compreender e aceder a informação sobre o processo de cuidados e sobre a sua saúde, bem como tem a espectativa de ter acesso a sistemas mais transparentes e abertos e com maior capacidade de resposta e envolvimento do médico no seu processo de decisão.

Apesar desta importante mudança conceptual o cidadão em geral apresenta ainda baixos níveis de literacia e não possui um verdadeiro entendimento sobre a sua condição de saúde. No que concerne aos profissionais são também percecionadas algumas falhas na informação que estes devem prestar, fundamentais para o cidadão, enquanto utente e/ou doente, tomar a melhor decisão sobre a sua saúde e tratamento da sua doença.

A constatação desta realidade evidenciou a necessidade de focar as reformas dos sistemas de saúde no cidadão, de acordo com as suas preferências, necessidades e valores, que devem orientar todas as decisões clínicas. Este reconhecimento levou a que, em parte, se passasse a considerar como fator essencial o envolvimento do cidadão e dos familiares na sua saúde e processo de cuidados (IM, 2001)[1].

O verdadeiro envolvimento do cidadão, não representa apenas a comunicação, a educação, ou a implementação de portais online. De facto, deve compreender um conjunto de fatores que vão desde o conhecimento, as capacidades, as competências e vontade deste para gerir a sua saúde, e os seus cuidados e dos seus familiares, até à existência de uma cultura na organização de saúde que priorize, apoie e envolva o cidadão, e conte com a colaboração ativa entre este e a organização na conceção, gestão e para alcançar bons resultados em saúde.


Neste contexto, podemos assim considerar três níveis de envolvimento:
1)    Decisão sobre a saúde e tratamento. O cidadão obtém informação sobre a sua condição de saúde e participa com as suas preferências de tratamento, permitindo que as decisões sejam partilhadas com o prestador de cuidados, com base na evidência científica, nas suas preferências e nos recursos clínicos disponíveis;
2)    Gestão de programas e design das organizações de saúde. A organização procura obter inputs sobre as experiências do cidadão no processo de cuidados, como forma de garantir uma resposta o mais adequada possível às suas necessidades;
3)    Desenvolvimento de políticas, estratégias e governação. O cidadão é envolvido nas decisões que a comunidade e a sociedade tomam sobre as políticas, leis e regulamentos relacionados com os cuidados de saúde e saúde pública (Neutelings, I. et al., 2017)[2].

O envolvimento ativo do cidadão, o qual pode ser apoiado pelas tecnologias de informação, é, pois, reconhecido como basilar no processo de cuidados e um fator crítico para ambientes de cuidados seguros e centrados nas pessoas. Acresce que, alguns estudos apontam que os recursos podem ser utilizados com maior efetividade se estiverem alinhados com as prioridades do cidadão (doente-utente), garantindo melhores resultados em saúde e menores custos, condição fundamental para a sustentabilidade dos sistemas de saúde (James, J., 2013)[3]

A evidência sugere ainda que os prestadores de cuidados e os decisores políticos devem criar oportunidades que promovam o envolvimento do cidadão e das suas famílias num diálogo a todos os níveis, nomeadamente: no cuidado direto ao indivíduo, no desenvolvimento dos sistemas e da gestão das organizações e na conceção e implementação de políticas, através da educação, investigação e regulação e definição de normas.

O objetivo principal é proporcionar uma análise plural e prospetiva sobre a importância do envolvimento e responsabilização do cidadão na sua saúde e quais os desafios futuros para o sistema de saúde, para os decisores políticos e prestadores de cuidados de saúde ao nível dos cuidados de saúde primários, hospitalares e continuados e para a comunidade e sociedade civil.

A Direção